quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Férias

Queridos amigos,

tirei férias do blog por alguns dias... Agora estou numa fase de viver e não de escrever. Uma licença literária, afinal o descanso faz parte do movimento. Volto ano que vem com mais novidades!

Um beijo com carinho a todos!
Saudades sempre,
deb

sábado, 21 de novembro de 2009

London Jazz Festival

Aconteceu entre os dias 13 e 22 de novembro o London Jazz Festival. Alguns dos convidados foram: Branford Marsalis (saxofonista norte-americano que tocava com Miles Davis, um dos músicos mais influentes do século XX), Giulia y los Tellarini (compositores da música Barcelona selecionada por Wood Allen para o filme Vicky Cristina Barcelona), Melody Gardot (cantora e compositora norte-americana), Trinity Jazz Orchestra (grupo de estudantes dos EUA reconhecidos pelo talento e dedicação à música), Madeleine Peyroux (cantora franco-americana famosa por suas habilidades vocais) e até Gilberto Gil (sempre pensei que ele fosse um cantor de MPB/reggae...). Alguns espetáculos eram de graça e o público era em geral de pessoas mais velhas. Fui aos shows da Trinity Jazz Orchestra e da Madeleine Peyroux (comprei este ingresso trinta minutos antes do show e paguei 10 pounds mais barato!), no SouthBank Centre (um Palácio das Artes gigante). A-do-rei!! Depois fomos numa feirinha de comida alemã em frente ao teatro, uma delícia!


Postei aquí embaixo um filmizinho que fiz da Trinity Orchestra:

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terça-feira, 17 de novembro de 2009

Choque cultural & homesickness


Nem tudo são flores... apesar dos posts super legais, morar em outro lugar tem seus espinhos. A sensação que tenho é que estou constantemente numa sala de espelhos e cada mínima atitude reflete quem eu sou. Aqui, vive-se experiências mais densas que colocam à prova a personalidade,a identidade, os objetivos, as escolhas. Quando me distanciei da rotina, dos amigos, da família, das paisagens habituais me vi fora da minha zona de conforto e comecei a introjetar o processo de mudança. Os dias de TPM e meu lado romântico só aumentaram meu sofrer.

Choque cultural é mais que sentir a diferença de fuso horário e saudade de casa (homesickness). Apesar de nem todo mundo passar pelas mesmas experiências, muitos especialistas no assunto concordam que existem 5 fases no processo de choque cultural, que formam um gráfico em U. E dependendo da situação pode haver mais de um ciclo!

Na primeira fase estamos empolgados com as novidades; até o clima diferente provoca sensações excitantes nunca sentidas. Algumas dificuldades como usar o telefone ou o transporte público (vide post Primeiros Passos)são superadas e você quer experimentar novas comidas e fazer contatos com pessoas. Em seguida, o desconhecimento dos códigos sociais te impedem de comunicar o quanto você deseja. Surge o sentimento de frustração e você se sente um idiota. Na terceira fase, você não tem mais impressões positivas da cultura que está inserido e acha que foi um erro ter feito esta viagem. VOcê se sente isolado e sua carência se reflete na necessidade de comer a comida de seu país. A quarta etapa se caracteriza pela rejeição da nova cultura e pela adoção de uma postura crítica e suspeita sobre tudo: as pessoas são chatas, o landlord está te passando pra trás, seu professor não gosta de você, a comida te faz mal, insônia, letargia, dores de cabeça e de estômago. Finalmente e ansiosamente chega-se ao último estágio. Agora já se domina a língua, já se conhece os costumes e o cotidiano,sua auto-confiança se desenvolveu. Você entende que não pode mudar o ambiente, deve aceitá-lo. As pessoas e as coisas deixam de ser erradas e se tornam apenas diferentes. Você também está diferente agora, provavelmente uma pessoa mais forte.

Weather


Ninguém sai de casa sem pesquisar o trajeto que vai fazer e a previsão do tempo. O http://uk.weather.com/ já está nos meus Favoritos. Como já é sabido, o clima de Londres não é dos melhores: vento frio, chuva, céu nublado. A chuva até que não molha muito porque os pingos são grandes e esparsos, mas incomoda. Os ventos, além de aumentarem a sensação de frio, destroem qualquer sombrinha que custe menos que 7 pounds. O céu nublado a gente gosta; nos faz lembrar que estamos aqui, em Londres!!!

Visto uma indumentária todos os dias. Além de calça jeans, bota e blusas de malha meus acessórios básicos são:
- meia-calça fio 80 ou de lã
- casaco de lã estilo trenchcoat
- luvas de couro
- chapéu/gorro
- cachecol
- sombrinha
- protetor labial

Aqui a gente vive experimentando choques térmicos. Do lado de fora aquele friozinho, do lado de dentro abafado. Quando chegamos em algum lugar fechado (casa, faculdade, bar, loja, supermercado) temos que tirar alguns ou todos os acessórios porque o aquecedor faz a gente suar. Estes choques térmicos provocam às vezes mal-estar e náuseas. Os ônibus/metrôs/trens são bem quentinhos, mas não são muito ventilados. Aprendi que é melhor ficar no fundão do ônibus para não correr o risco de sentar próximo a um velhinho fedorento. Sim, algumas pessoas aqui exalam um odor peculiar: uma mistura de roupa molhada e suja com suor. Os pums das pessoas são mais perceptíveis, já que o ar não circula nos lugares fechados. Tem dia que fico de saco cheio de pegar transporte público por causa destas coisas.

Eu cheguei no outono, quando ainda havia dias de sol, algumas árvores com folhas, pouca chuva. Agora é enfrentar o inverno que nem começou direito. Os dias estão bem curtos, com luz solar das 7:00 AM as 4:30 PM. O clima só vai começar a melhorar em abril. Aí é hora de ir para os parques! Não vejo a hora de tomar sol de biquini no Hampstead Heath! Mas isso já é assunto para outro post que ficará pronto só daqui a uns 5 meses...

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Baladas !!







A primeira coisa é ter disposição. Pra ir pega-se no mínimo um metrô/trem e um ônibus e pra voltar só se pode contar com os ônibus noturnos que demoram a passar. E é bom sair la pelas 6:30 PM porque pouco depois da meia-noite os pubs fecham e só os clubs ficam abertos. A volta é legal : ver as figuras exóticas retornando pra casa, bêbados cochilando, fog e garoa nas ruas ... isso tudo te destrai durante o percurso de uma hora e meia até sua cama quentinha.


Até agora saí em pubs da Angel St, Brick Lane St e Soho. Quero muito sair à noite em Camdem Town mas ainda não rolou. Geralmente vamos pra casa de alguém (da Cris ou de algum amigo dela) e fazemos o esquenta com vinho. Outro dia, na Angel St, fomos para um restaurante turco antes de ir para um pub que era um corredor, onde as pessoas dançavam Michael Jackson entre o balcao de bebidas e uma parede de espelhos. As pessoas aqui bebem pra caralho! A Cris diz que nós saimos pra nos divertir e consequentemente ficamos bêbados e eles saem pra beber e a diversão fica pra segundo plano. Neste dia um rapaz de Cambridge me tirou pra dançar! Ficamos fazendo passinhos, algumas performances tímidas e paramos por aí.


Adoro a Brick Lane, uma mistura da Savassi de BH com a Rua Augusta de SP. Durante o dia vários brechós, alfaiatarias, lojas de CDs, cafés. Numa portinha você encontra a vendedora bordando um vestido, em outra vendem-se havaianas, mais na frente um topa-tudo kitsch. Durante a noite uma galera mais descolada pelos bares e clubs grafitados. Há uma rua cheia de indianos tentando de convencer a entrar nos restaurantes; morro de preguiça deles, mas acho que fazem parte daquela paisagem urbana. A galera lá geralmente anda bem high, e imagino que a noite de Camdem Town seja bem parecida.


Fui num bar/galeria de arte bem legal também. Fica dentro da London Bridge Station. Você entra numa porta de madeira e se envereda por galerias subterrâneas com bares, shows ao vivo, performances, teatro. Achei bem Londres: havia decoração gótica, música latina, bolhas de sabão gigantes, cheiro de lugar húmido.


Os bofes daqui são mais reservados. Não têm o mesmo approach que os brasileiros, que eu valorizo muito! São bem estilosos e se não estão bêbados vão ficar. Ainda não atinei muito para a questão bofes, mas minha impressão é a de que: os indianos são trabalhadores que querem se dar bem, os italianos e árabes te comem com os olhos e te fazem sentir mulher-objeto, os ingleses são ou muito fechados ou muito excêntricos. Sempre que tenho oportunidade converso horas, pergunto tudo, aquele meu jeitinho lady deb de ser. Na verdade ainda não conheci um homem interessante, que me fizesse querer dar aquele beijo gostoso. Mas ainda há oito longos meses pela frente e muita coisa vai acontecer nas noites londrinas!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Trabalho da facul

Uma das matérias mais interessantes que faço é a de Modernity, Traditionalism & National Identity. O objetivo do curso é analisar a história de Portugal de 1820 até os dias atuais através de textos literários. Assim, discutimos o contexto histórico, as técnicas literárias, a questão do passado e a construção da identidade lusitana.
Cada semana um aluno apresenta (em inglês!) uma obra literária e faz a ligação com o momento histórico. Eu escolhi falar do modernismo/futurismo português, da literatura de guerra, da necessidade de abandonar a visão romântica do passado. A base da minha apresentação será os poemas Ultimatum, de Álvaro de Campos, e Ultimatum Futurista, de Almada Negreiros. E olha só quem eu achei na net declamando o poema:
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O ensaio escrito sobre este trabalho encontra-se no endereço: https://sites.google.com/site/pesquisaemletras/

Big City Sleep

Caros leitores,

estou participando de uma campanha de caridade para crianças de rua do Brasil. Quem quiser contribuir ou saber um pouquinho mais do jeitinho britânico de ajudar visite o site abaixo:


http://www.justgiving.com/Debora-Salomao0

Obrigada!
deb

Bristish Culture: The Poppy Appeal







Novembro é um mês especial para os ingleses. Eles celebram o The Poppy Appeal. O primeiro Poppy Day foi realizado na Grã-Bretanha em 11 de novembro de 1921, inspirado no poema In Flanders 'Fields escrito por John McCrae. Desde então, tornou-se um evento importante no calendário anual da nação.

A estória é a seguinte:

Um dos mais sangrentos combates da Primeira Guerra Mundial aconteceu nas regiões da Flandres (Bélgica) e da Picardia (França). A papoula foi a única coisa que cresceu após as batalhas. McCrae, um médico que servia junto às Forças Armadas canadeneses, comovido com o que viu escreveu o poema. (curisosamente estes versos me foram apresentados 9 anos atrás por meu professor de inglês quando estava no Canadá).

Na décima primeira hora do primeiro dia do décimo primeiro mês de 1918, a Primeira Guerra Mundial terminou. A população civil queria lembrar as pessoas que tinham dado suas vidas em prol da paz e da liberdade. Um secretário de guerra americano, Moina Michael, inspirado pelo poema de John McCrae, começou a vender papoula aos amigos para arrecadar dinheiro para a comunidade de ex-combatentes. E assim a tradição começou.

Em 1922, o major George Howson, um jovem oficial de infantaria, formou a Disabled Society para ajudar os ex combatentes da Primeira Guerra Mundial. Howson sugeriu que os membros da Disabled Society produzissem papoulas e a Poppy Factory foi fundada. A papoula original, desenhada especialmente para que os trabalhadores tivessem facilidade em montá-la, permanece a mesma até hoje.

Novembro mal deu as caras e já se vê garotos, rapazes e senhores usando a Poppy no lado esquerdo do peito. Muito legal!


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In Flanders' Fields
John McCrae, 1915



In Flanders' fields the poppies blow

Between the crosses, row on row,

That mark our place: and in the sky

The larks, still bravely singing, fly

Scarce heard amid the guns below.

We are the dead. Short days ago

We lived, felt dawn, saw sunset glow,

Loved and were loved, and now we lie

In Flanders' fields.



Take up our quarrel with the foe;

To you from failing hands we throw

The torch; be yours to hold it high,

If ye break faith with us who die

We shall not sleep, though poppies grow

In Flanders' Fields.

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Nos campos de Flanders
John McCrae, 1915

Nos campos de Flanders as papoulas balançam
Entre as cruzes, fileira por fileira,
Isto marca nosso lugar: e no céu
As cotovias, ainda voam e cantam bravamente,
mas não são ouvidas entre as armas abaixo.
Nós somos os mortos. Poucos dias atrás
estávamos vivos, sentíamos tristes, víamos o pôr-do-sol brilhar,
Amávamos e éramos amados e, agora, nós estamos deitados
Nos campos de Flandres.
Compre a nossa briga com o inimigo;
com nossas mãos caídas jogamos para você
A tocha, seja sua para que ela se mantenha no alto,
Se nossa fé se for com aqueles que morrem,
Não vamos dormir, apesar de as papoulas crescerem
nos campos de Flanders.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Trampo

Uma outra forma de conhecer o cotidiano londrino é arrumar um trabalho. Assim, você vê como se dão as relações de trabalho, a forma de socialização dos colegas, o jeito que as coisas funcionam. No início achei difícil conseguir porque, como em qualquer lugar, indicação conta muito. Mas quando completou exatamente um mês que estava aqui, 14/10/09, encarei o meu primeiro dia de trabalho.
E comecei bem do começo mesmo, como cleaner. Estava distribuindo currículos pelas ruas e conheci um porteiro boliviano que está aqui há 6 anos e que me passou este trampo. Trabalho de segunda a sexta de 5:00 as 8:00 da manhã no Centre Point (prédio de escritórios na Tottenham Court Station). As tarefas são tranquilas: lustrar as macanetas, limpar os vidros, tirar poeira. Fazem parte do meu team duas inglesas e vários bolivianos e colombianos. Estou super praticando meu espanhol!! Apesar de às vezes acordar com sono - principalemente se saio na noite anterior - é muito legal ver Londres acordar. A London Eye iluminada, sentir fog nas ruas, ver pessoas indo trabalhar e muitas voltando da balada em plena segunda-feira.
Também trabalho como waitress nos fins de semana ou em algum dia da semana que estou livre. A agência me manda email convocando e se eu quiser trampar eu respondo, bem flexível. Adorei a experiência! Uma galera de jovens, alguns estudantes, alguns que fizeram disso uma profissão. Ninguém sabe o que fazer direito, pois cada hora o gerente fala uma coisa: "reponha os pães, sirva no buffet, troque as bandejas de frutas, atenda as mesas!" Mas tá todo mundo no mesmo barco e a gente acaba se divertindo muito, conhecendo pessoas, fazendo amizades temporárias.
Em breve penso em largar o de cleaner. Apesar de gostar das pessoas e da estabilidade do emprego acho que posso experimentar outras coisas. E apareceu um terceiro emprego! O nome do cargo é analyst market research. O que tenho que fazer é analisar os comentários de clientes de determinados produtos (celulares, filmes, livros, series de tv) em foruns de discussão e websites e preencher uma planilha de acordo com categorias e classificações. Trabalho como freelancer em casa, horário flexível e ainda pratico meu inglês, as habilidades de tradução (dependendo do produto tenho que analisar websites em português/espanhol) e de interpretação (tenho que entender o que a pessoa quis dizer e porquê). Agradeço a Crisoca, que me indicou para a vaga, e a Prefeitura de Lagoa Santa, que me proprocionou experiência em marketing de relacionamento (isso contou muito no currículo e na entrevista).
Quero ter muitos outros empregos aqui! Cada dia vejo que, seja isso bom ou ruim, meu perfil profissional é o de um generalista, que faz um pouquinho de cada coisa, que sabe de "tudo" um pouco. Além disso, vejo que qualquer experiência é muita válida; sempre aprendo alguma coisa que serve pra minha vida pessoal ou que será um achado nas incertezas do futuro. Ouvi dizer que a Microsoft procura gente com este perfil... quem sabe é uma, né?! rsrs
*****
Para refletir:
"O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade."(Voltaire)
"É estranho que, sem ser forçado, saia alguém em busca de trabalho." (William Shakespeare)
"O trabalho agradável é o remédio da canseira." (William Shakespeare)
"O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra." ( Aristóteles)
"O gênio é um por cento de inspiração e noventa e nove por cento de transpiração." (Thomas Edison)
"Assim como não existem pessoas pequenas na vida, sem importância, também não existe trabalho insignificante." (Elena Bonner)
"A maior recompensa do nosso trabalho não é o que nos pagam por ele, mas aquilo em que ele nos transforma".(John Ruskin)
"A rotina é mais uma atitude da alma do que uma estrutura laboral". (Miguel-Angel Martí García)
"Pensar é o trabalho mais pesado que há, e talvez seja essa a razão para tão poucos se dedicarem a isso." (Henry Ford)
"O objetivo adequado da imaginação é proporcionar beleza ao mundo... lançar sobre um simples dia de trabalho um véu de beleza e fazê-lo tremer com a nossa alegria estética".(Lin Yutang)

Go shopping

Aqui está um post que ilustra minhas idas às compras.

Nas inúmeras lojinhas Off-license (tipo lojas de conveniencia geralmente de propriedade de indianos, afegãos ou polonoses) pode-se comprar cigarros, vinhos, chocolates, sanduíches, adaptador de tomada e o mehor de tudo: recarregar o Oyster - cartão semanal de transporte.

No supermercado - onde tudo é bem mais barato, inclusive mais barato que o Brasil (o cream cheese custa 1 pound!) - pode-se optar pelas tradicionais filas do caixa ou pelas máquinas de self check-out, nas quais o próprio cliente passa o código de barras das mercadorias no leitor óptico, embala, paga com cartão ou dinheiro e assina na tela com uma caneta magnética. Fazer as compras da semana é uma experiência democrática, pois sempre existe um produto que cabe no seu bolso. Quer geléia de morango? Existe uma bem barata, uma mais ou menos e uma cara. Ahh e se você não levar sua bolsa ecológica ou carrinho de compras você paga pelas sacolas plásticas.

O conceito de loja mais interessante é o das lojas Argos. Você entra e vai para um balcão de catálogos com milhares de produtos. Após fazer sua escolha, você digita o código do produto em um aparelho para ver se há items disponíveis. Se sim, você anota o código, vai ao caixa e paga. O terceiro passo é ir ao balcão de atendimento e pegar o que você comprou. Em menos de cinco minutos você pode sair de lá com uma mesa, um colchao inflável ou como eu com um depilador de bateria recarregável. Me senti percorrendo um daqueles fluxogramas das remotas aulas de Organizações e Métodos. Aqui funciona muito bem!

Os ingleses não têm a cultura de Shopping e nem são tão consumistas como os colonizados estadunidenses e seus "discípulos". Fui apenas a um Shopping que tinha lojas famosoas como a Mac, a Burberry, Calvin Klein, Lacost, Luis Vuitton, Mango, Mont Blanc, Tiffany, Swaroviski. Ruas de comércio são mais comuns. A Oxford St. é a mais turística. Mas há também a High Street Kensington e a Victoria Road. A Primark é, como diz o amigo Hudson, o paraíso dos "pobres". A TopShop, o ícone fashion. A Harrods, um luxo só. A T.Q.Max, um lugar de coisas legais pra ir em época de promoção. A House of Fraser, uma loja para olhar as roupas lindas e sentar na cadeira que faz massagem. A BodyShop, um cantinho cheiroso de cremes e produtos de banho. A Boots, a inspiração da Araújo - uma fármacia que vende até remédio. Há também os mercados! Comida, roupas, gravuras, quadros, bolsas, bijous, relógios... É só escolher; eu já fui no Camden Town, Portobelo Market, Notting Hill Market, Borough Market.

As papelarias dão descontos para estudantes e na compra de alguns produtos você leva outro grátis. Os fast-foods são bem baratos; um cheeseburger do McDonalds é 0,99 pounds. A HMV vende dvs e cds a partir de 3 pounds - deve ser por isso que não há locadoras de filmes aqui.

Os produtos, as lojas, o atendimento mostram muito da cultura inglesa : tudo prático, democrático, eficiente. Sem choro nem vela.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A Faculdade

A faculdade aqui é bem legal. As salas de aula são equipadas com data-show, retroprojetor, cadeiras confortáveis, mesas grandes. Os professores são super qualificados; as aulas são em inglês e os textos para leitura são escritos em inglês e em português. Há muito apelo a discussão e a participação dos alunos.

O pessoal da recepção sempre dá a informação precisa, seja em qualquer campus que estiver. Isto eu achei impressionante! Se você estuda no Strand Campus, mas tem uma lecture no Guy’s Campus é só perguntar que a recepcionista informa a sala, o horário, o professor! Parecia que ela tava me esperando!

A primeira semana foi meio confusa... não apenas nós brasileiros fomos agraciados com a desordem. Meu tutor não sabia quais disciplinas eu devia fazer, quantos créditos tinha que completar, se podia me inscrever em cursos de outro departamento. Na verdade acho isso bem típico do mundo acadêmico. Tudo mais calmo, os erros podem ser revisados e tudo acaba bem. Bem diferente do mundo dos negócios.

Neste semestre estou fazendo duas disciplinas de Litertura/História Portuguesa, uma do departamento de Lingüística e vários cursos isolados de língua inglesa. Estou adorando! Cada vez mais me identifico com a área da Lingüística Aplicada. Acho que vou me especializar nisso.
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Lingüística Aplicada: “uma área de estudos que busca a integração da linguagem, seu aprendizado, processos sociocognitivos e um foco no sujeito/agente dos processos lingüísticos. (...) A grande virada da teoria lingüística não ocorreu de fato, como afirmado por muitos, ao final da década de 50, com o advento da Teoria Gerativa. As mudanças cruciais, a meu ver, têm-se desenvolvido com a busca de interfaces entre os estudos da linguagem, da cognição e da cultura”. (Mello, 2004. p55)

Fonte: http://www.voy.com/192107/4/3.html

sábado, 3 de outubro de 2009

“I will buy the flowers myself”


Desde pequena sou acostumada a minha própria companhia. Acho que isso explica muita, muita coisa mesmo do rumo que minha vida tomou. Sou caçula e minhas irmãs são respectivamente 4 e 6 anos mais velhas que eu e definitivamente fazem escolhas bem diferentes das minhas. Já brinquei muito sozinha: de boneca, de princesa de conto de fadas, de pegar a bicicleta e ir até a lagoa subir nas árvores, de ler livros da coleção vaga-lume, de quebra-cabeças. Sempre gostei de ter autonomia, de fazer aquilo que realmente desejava, tendo companhia ou não. Por outro lado organizava festinhas, presidia comissões de formatura, viajava com amigas. Cresci assim, sendo independente e digamos carismática. Adoro passear sozinha, pegar um ônibus/carro/avião e uma mochila e sair por aí conhecendo gente. Adoro estar com meus amigos num boteco ou na sala lá de casa até tarde da noite. Aqui estou aprendendo a equilibrar o convívio com os brasileiros e a prática do inglês/contato com outras culturas. Tenho tido ótimos momentos com o quarteto Carol/Marcela/Naiara/Luiz - como o passeio de barco a Greenwich, o happy hour com a Comunidade de Estudos Brasileiros e Portugueses, sem contar as burocracias que sempre optamos por decifrá-las juntos! Mas para mim a melhor forma de estar aberta para o novo é estar sozinha – terá isso alguma ligação com arquétipos da infância? Não sei... não sei se simplesmente sou assim e ponto! Alguns lugares imaginários, por exemplo, pedem que o visitamos sozinha. Senti isso quando refiz a caminhada de Mrs Dalloway, protagonista do romance homônimo de Virginia Woolf. Tinha tanta intimidade com esta obra que não havia como compartilhar a emoção de tentar vivê-la. Este foi um dos dias mais alegres que tive aqui. Ao andar pelo Dean’s Yard, pela Westminster e Victoria Street, pelo St. James' Park, pela Picadilly Street, pela Old e New Bond Streets até chegar a Oxford Street eu conversei com tantas pessoas pelo caminho! Com turistas espanhóis, com vários guardas (me perdi algumas vezes!), com o dono da loja de conveniência que é do Afeganistão... e depois descobri uma biblioteca ótima no meu bairro e fiquei amiga da camareira peruana da moradia... Fiquei feliz porque saber que posso contar comigo quando precisar e que me divirto muito em minha companhia! Assim como Clarissa Dalloway - introspectiva, emotiva, preocupada em se comunicar e em acreditar no significado de sua vida – estou aprendendo a aceitar as coisas como elas são e a tirar o melhor proveito delas.




Virginia Woolf *1882 + 1941

Uma das mais importantes escritoras britânicas. Realizou uma série de obras notáveis, as quais lhe valeram o título de "a Proust inglesa". Faleceu em 1941, tendo cometido suicídio.

Virginia Woolf era filha do editor Leslie Stephen, o qual deu-lhe uma educação esmerada, de forma que a jovem teria frequentado desde cedo o mundo literário.Em 1912, casou-se com Leonard Woolf, com quem funda, em 1917, a Hogarth Press, editora que revelou escritores como Katherine Mansfield e T.S. Eliot.

Virginia Woolf foi integrante do grupo de Bloomsbury, círculo de intelectuais que, após a Primeira Guerra Mundial, se posicionaria contra as tradições literárias, políticas e sociais da Era Vitoriana.

A obra de Virginia é classificada como modernista. O fluxo de consciência foi uma de suas marcas mais conhecidas e da qual é considerada uma das criadoras.Suas reflexões sobre a arte literária - da liberdade de criação ao prazer da leitura foram reunidos em dois volumes O Leitor Comum , homenagem explícita da autora àquele que, livre de qualquer tipo de obrigação, lê para seu próprio desfrute pessoal.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Trintona!



Não há como negar que completar 30 anos é um marco. Há quem pense que qualquer idade pode ser um divisor de águas e eu concordo com isso plenamente. Mas 30 é 30, não tem jeito... São muitos referenciais colocados a prova: já casou?(este ainda é bem cotado, acreditem!), já fez mestrado?, já ganhou dinheiro?, já está bem profissionalmente? já deu ok no seu check list pessoal? Afff... e eu fiz minhas malas e vim pra Inglaterra investir no meu curso de Letras e conviver com uma miscelânea de gente! No fundo sabia que me sentiria bem aqui neste momento.

É uma idade em que se está nova, mas não tão nova; se está madura, mas não tão madura. Assim parece-me a idade ideal, o equilíbrio onde experiência e juventude estão bem dosadas. Sempre tive síndrome de velhice. Aos 21 pensava: nossa estou tão velha, já deveria ter feito tanta coisa! E hoje vejo que naquela idade eu já fazia muita coisa, mas não conseguia enxergar isso porque o desejo infantil de querer tudo a toda hora me impedia. Tive a impressão que os últimos cinco anos passaram zunando... talvez pelas grandes mudanças que proporcionei a minha vida. Sinto que continuo bonita, animada, aventureira, mas agora bem mais esperta.

Com tantos tropeços e tentativas aprendi a confiar mais nas minhas decisões e a acertar mais. Acho que isso é uma questão de tempo mesmo. Aprendi a ser mais autêntica, pois passei por inúmeras situações que testaram minha personalidade. Também gosto de pensar que os 30 são os novos 20. Acho que é a oportunidade de fazer tudo de novo, só que agora mais bem feito.

Descobri que as opções na vida, na verdade, não são muitas. Não há muito o que fazer, mas sempre há uma terceira porta. E quantas vezes me perdi em um mundo de opções inexistentes... Colocando na balança as opções que tive e meu conhecimento do mundo e de mim mesma acho até que me saí muito bem! E agora é aproveitar muito tudo o que uma juventude madura pode me oferecer. Que venham os 30!

***

Ele não podia ficar fora desta!


Honoré de Balzac *1799 + 1850
Romancista francês, um dos maiores nomes do realismo literário. Os hábitos de trabalho de Balzac tornaram-se lendários - escrever cerca de quinze horas por dia, impulsionado por um sem-número de chávenas de café.
Duas de suas famosas obras são A Comédia Humana
(retrato da vida burguesa da França do seculo XIX) e A Mulher de 30 Anos (obra fraca em termos de desenvolvimento narrativo, com personagens frágeis e personalidades contraditórias). Foi em A Mulher de 30 Anos, que pela primeira vez a mulher madura teve destaque na literatura. O autor valorizava sua beleza, experiências, pensamentos, desejos, angústias, reivindicava o direito dela ser feliz, e discutia as mazelas de um casamento fracassado, no qual a mulher estava destinada a carregar a cruz das suas obrigações sociais e legais, a ser prisioneira de seus deveres.


Algumas de suas frases:


* As mulheres, como as crianças, acham que tudo lhes é devido.

*As moças com freqüência criam imagens nobres, deslumbrantes,figuras totalmente ideais,e forjam idéias quiméricas acerca dos homens, dos sentimentos, do mundo; depois atribuem inocentemente a um caráter as perfeições que sonharam, e entregam-se a isso, amam no homem que escolheram essa criatura imaginária; porém, mais tarde, quando não há mais tempo de livrar-se do infortúnio, a enganadora aparência que embelezaram, seu primeiro ídolo, transforma-se enfim num esqueleto odioso.

*Considero a família e não o indivíduo como o verdadeiro elemento social (arriscando-me a ser julgado como espírito retrógrado).


*A infelicidade tem isto de bom: faz-nos conhecer os verdadeiros amigos.

*Terrível condição do homem! Não há uma das suas felicidades que não provenha de uma ignorância qualquer.

Nota: a foto eu tirei daqui: http://interpretacoes.wordpress.com/

Moradia Estudantil

Sempre quis saber como é uma moradia estudantil. Já morei em pensionato de freiras – que tem como semelhança apenas as características ruins e que se abstém de ter um lado digamos positivo. O quarto tem 8m2, cama, gaveteiro, estante, armário, aquecedor, escrivaninha e uma pia. A vista dá para o quintal vizinho, que se resume a muitas árvores juntas. Os banheiros, separados em cômodos com duchas e cômodos com vasos sanitários, assim como as cozinhas e as lavanderias ficam espalhados pelos longos corredores e podem ser usados por meninos e meninas. O refeitório, a sala de jogos, a sala de estar e o bar ficam em outro prédio, do outro lado do gramado habitado por esquilos e corvos. O Sainsbury’s supermarket e o Ruskin Park ficam a cinco minutos de caminhada. Os alunos – japoneses, franceses, indianos, irlandeses, búlgaros, romenos, chineses, coreanos e ingleses - são na maioria bem jovens, com exceção de alguns da pós-graduação (tem um de 40). Aqui é uma mistura! Muitas festas, refeições coletivas, banhos de sol no jardim, pessoas completamente bêbadas, muita música, muitos sonhos diferentes. Fico aqui cismando, transformando minha vida em curta metragens, olhando pra frente, pra trás, pros lados. Cada escolha: um ganho e uma perda. Bom saber que posso conhecer um pouquinho de cada canto do mundo através das pessoas e que posso me re-conhecer. Bom mesmo é saber que a volta é tão certa quanta desejada, e que por isso é preciso aproveitar cada instante. Aprender sobre convivência social, sobre o que gosto ou não nas pessoas, sobre o que as torna tão iguais e às vezes tão únicas, sobre altruísmo e comunicação... De repente me dou conta que aqui parece mesmo uma Babel...

Os primeiros passos


Os primeiros passos sempre são difíceis e prazerosos. Fico pensando nos bebês que depois de passarem cerca de 10 meses sentados ou deitados começam a engatinhar e a esboçar os primeiros passos. A insegurança dá lugar à imensa vontade de se apoiar nas próprias pernas - depois de senti-las tremer involuntariamente em frente a uma grande platéia que sempre sorri perante qualquer nova tentativa. O desafio é sacrificante, mas a experiência é muito recompensadora. Dá pra sentir pela alegria do rostinho deles! A platéia aqui nem sempre está sorrindo e esperando o melhor de mim. Com certeza estão a toda hora se desculpando por qualquer coisa e desta forma mantendo a “devida” distância. Foi assim nos meus primeiros passos em Waterloo Station, na Batersea Park Station, na Queensroad Station, na Victoria Station e tantas outras stations do emaranhado e eficiente sistema de transporte londrino. Em Clamphan Junction Station, por exemplo, estava sozinha e incrivelmente cansada; já passava das 20 hs quando apertei o botão que abria a porta do metrô. Tinha que pegar outra linha e ainda procurar a Austin Road, rua onde a Cris mora e onde eu estava hospedada por alguns dias. Apertei o botão e a porta simplesmente não abriu; não pude fazer nada além de enxergar a estação ficar cada vez mais distante. Fui até o final da linha para então regressar ao meu destino. Neste dia senti minhas pernas tremerem e consegui dar um dos meus primeiros passos.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

There is no home

Sensação de desconforto, de não caber em lugar nenhum. Preguiça de ir, preguiça de ficar. Vontade/medo do novo, segurança/mesmice do antigo. Querer conhecer gente de tudo quanto é jeito e ter saudade daqueles velhos Queridos Amigos. Anseio por comidas, bebidas, cheiros e imagens - dotadas de sentido simplesmente por serem diferentes - e ao mesmo tempo querer o aconchego daquele buteco ao lado de casa, do sofá-cama e ter todos os meus apetrechos no devido lugar. Experimentar museus e parques; provar castelos; fazer parte de outra rotina, outra cultura; brincar o dia inteiro com palavras de outro idioma. E lembrar daquela lagoa, daquele céu, daqueles morros, daquelas músicas.

Estar com um pé lá e outro cá. Realmente não é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo. Inclusive não é recomendado. Distanciar é preciso! Crescer dói... mas não dói apenas. Nos aproxima um pouco mais da completude da vida.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Tipo assim...

Se não acreditarmos naquilo que as pessoas falam ou praticam, vamos acreditar em quê? No que elas pensam???

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Stages - Etapas

As every flower fades and as all youth
Assim como toda flor murcha e toda juventude

Departs, so life at every stage,
Acaba, assim como cada etapa da vida,

So every virtue, so our grasp of truth,
Assim como qualquer virtude, assim como nosso anseio pela verdade,

Blooms in its day and may not last forever.
Floresce a seu próprio tempo e não dura para sempre

Since life may summon us at every age
Já que é provável que a vida nos convoque a cada idade

Be ready, heart, for parting, new endeavor,
Esteja pronto, coração, para partir, novo esforço,

Be ready bravely and without remorse
Esteja pronto bravamente e sem remorso

To find new light that old ties cannot give.
Para achar nova luz que velhas amarras não podem dar.

In all beginnings dwells a magic force
Em todo começo há uma força mágica

For guarding us and helping us to live.
Que nos protege e nos ajuda a viver.

Serenely let us move to distant places
Serenamente nos permite mover para lugares distantes

And let no sentiments of home detain us.
E não deixa que nenhum sentimento nostálgico nos detenha.

The Cosmic Spirit seeks not to restrain us
O Espírito Universal não quer nos atar

But lifts us stage by stage to wider spaces.
Mas nos erguer etapa por etapa a espaços mais amplos.

If we accept a home of our own making,
Se acomodarmos em lugares construídos só por nós,

Familiar habit makes for indolence.
Os hábitos familiares nos levarão à indolência.

We must prepare for parting and leave-taking
Devemos estar prontos para para partir e nos despedir

Or else remain the slaves of permanence.
Ou então seremos escravos da permanência.

Even the hour of our death may send
Até mesmo o momento da nossa morte deverá nos enviar

Us speeding on to fresh and newer spaces,
Rapidamente para espaços novos e frescos,

And life may summon us to newer races.
E a vida deverá nos convocar para novas provas.

So be it, heart: bid farewell without end.
Então seja assim, coração: despeça-se eternamente.

Hermann Hesse (*1877 - +1962)
Escritor alemão, de família muito religiosa, filho de pais que tinham pregado o cristianismo na Índia. Tendo recusado a religião ainda adolescente, rompeu com a família e emigrou para a Suíça, trabalhando como livreiro e operário. Em 1946 ganhou o Prêmio Goethe e o Prêmio Nobel de Literatura.

Lá, eu não sei aonde...

Véspera de viagem, campainha...
Não me sobreavisem estridentemente!

Quero gozar o repouso da gare da alma que tenho
Antes de ver avançar para mim a chegada de ferro
Do comboio definitivo
Antes de sentir a partida verdadeira nas goelas do estômago,
Antes de por no estribo um pé
Que nunca aprendeu a não ter emoção sempre que teve que partir.

Quero, neste momento, fumando apeadeiro de hoje,
Estar ainda um bocado agarrado à velha vida.
Vida inútil, que era melhor deixar, que é uma cela?
Que importa? Todo o Universo é uma cela, e o estar preso não tem que ver com o tamanho da cela.

Sabe-se a náusea próxima o cigarro. O comboio já partiu da outra estação...
Adeus, adeus, adeus, toda a gente que não veio desperdir-se de mim,
Minha família abstrata e impossível...
Adeus dia de hoje, adeus apeadeiro de hoje, adeus vida, adeus vida!
Ficar como um volume rotulado esquecido,
Ao canto do resguardo de passageiros do outro lado da linha.
Ser encontrado pelo guarda casual depois da partida -
"E esta? Então não houve um tipo que deixou isto aqui? -

Ficar só a pensar em partir,
Ficar e ter razão,
Ficar e morrer menos...

Vou para o futuro como para um exame difícil.
Se o comboio nunca chegasse e Deus tivesse pena de mim?

Já me vejo na estação até aqui simples metáfora
Sou uma pessoa perfeitamente apresentável.
Vê-se - dizem - que tenho vivido no estrangeiro.
Os meus modos são de homem educado, evidentemente.
Pego na mala, rejeitando o moço, como a um vício vil.
E a mão com que pego na mala tre-me e a ela.

Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia.
Partir! Meu Deus, partir! Tenho medo de partir!...




Álvaro de Campos (* 1890 - + ?)
É um dos heterônimos mais conhecidos de Fernando Pessoa, o qual declarou que Campos :

«Nasceu em Tavira, teve uma educação vulgar de Liceu; depois foi mandado para a Escócia estudar engenharia, primeiro mecânica e depois naval. Numas férias fez a viagem ao Oriente de onde resultou o Opiário. Agora está aqui em Lisboa em inactividade.»

Era um engenheiro de educação inglesa e origem portuguesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte do mundo. Pessoa disse também em relação a este heterónimo que :

<Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda. Meu coração é uma avozinha que anda Pedindo esmolas às portas da alegria. >>

Entre todos os heterónimos, Campos foi o único a manifestar fases poéticas diferentes ao longo de sua obra. Houve três fases distintas na sua obra: decadentista (influenciado pelo Simbolismo), futurista ( versilibrista, jactante, e com uma linguagem eufórica onde abundam as onomatopeias, uma série de poemas de exaltação do Mundo moderno, do progresso técnico e científico, da evolução e industrialização da Humanidade) e niilista (desilusão com o Mundo em que vive, a tristeza, o cansaço).

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Poesia para os ouvidos, música para o coração


Paciência
(Lenine & Dudu Falcão)

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não pára...

Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...

Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...

O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não pára
A vida não pára não...

Será que é tempo
Que lhe falta prá perceber?
Será que temos esse tempo
Prá perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida é tão rara
A vida não pára não...

A vida não pára...
A vida é tão rara...

domingo, 24 de maio de 2009

Conselho aos Janjãos...

"A vida Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante."


Teoria do Medalhão, Machado de Assis.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Sessão Cinema I

video

Este é imperdível!!

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Teoria e prática

A teoria é tão bonita, tão boa, tão justa. Chega assim a ser perfeita.
Mas nada como a prática para mostrar o real funcionamento das coisas.
Há que se viver para entender. Para entender o mundo das idéias e para entender o mundo aqui de baixo.
Um mundo não vive sem o outro, apesar de não raro se contradizerem. Nada tem a ver com nada, logo tudo tem a ver com tudo.

- Complexo?
- ahn... quase não entendi...
- tá vendo! tem que praticar, que se jogar, que dar a cara a tapas, que tentar, que dar ouvidos a si mesmo. Só assim a teoria de qualquer coisa faz algum sentido.

Por isso eu pergunto a você no mundo:

video

domingo, 26 de abril de 2009

Somos

Somos ansiosas porque não sabemos o que queremos.

Queremos tantas coisas.



Somos medrosas porque é difícil enfretar o novo.

E o novo precisa acontecer.



Somos cuidadosas porque nos faz bem.

O cuidado assusta.



Somos falantes porque pensamos muito, em tudo.

Pensar cansa.


Queremos, tememos, cuidamos e pensamos. Assim vivemos, trabalhamos, amamos.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Platonismo...

Ruim ficar longe querendo

Ruim ficar longe e sem querer

Ruim ficar perto na expectativa

Ruim ficar longe e ter saudade

Bom mesmo é pensar em ti

Bom mesmo é fazer com que os minutos durem até quando o sonho deixar

Às vezes não

Às vezes faz lua cheia e o luar nos faz subir as escadas. As palavras fazem cócegas.

Às vezes faz calor e isso faz lembrar. As fotos nos olham, nos confirmam ou nos mentem.

Às vezes dá uma vontade que se sente até no cochilar.

Às vezes nem precisa de coberta por que a gente não sente medo de existir.

Às vezes, só às vezes...

Às vezes não vale a pena e é melhor parar por aqui.

Entrelaçados


Quero um colo e um cafuné
Alguém pra dividir as contas e tomar um café.

Epifanias

Uma gota sozinha escorre, contorna o nariz e morre na boca. A primavera continua distante, mas consigo imaginar os ipês amarelos pela estrada quando estou dirigindo. E talvez 20 km depois a gota surge novamente no canto do olho. Sol quente, vento frio, céu azul. Uma certa melancolia. E aí penso: "a minha realidade era diferente da sua e diferente daquela que você pensava ser a minha". E não tem como explicar melhor... meras epifanias do cotidiano.

Querencia

Querer, querer,

querer sempre mais.

Dizem que querer é poder

e que desistir jamais.

Só sei que é tanta a vontade

que o coração invade.

Pra mim, querer

não é senão viver.

terça-feira, 24 de março de 2009

Porque de uma forma ou de outra escolhemos



The Road Not Taken
A estrada não escolhida


TWO roads diverged in a yellow wood,
Duas estradas se bifurcavam próximo a um bosque amarelo

And sorry I could not travel both
E infelizmente eu não podia viajar pelas duas

And be one traveler, long I stood
Já que eu era apenas um, permaneci lá longamente

And looked down one as far as I could
E estiquei a vista para uma o máximo que pude

To where it bent in the undergrowth;
Até onde ela se inclinava para baixo da linha do horizonte

Then took the other, as just as fair,

Então peguei a outra, como deveria ser justo,

And having perhaps the better claim,
E tive talvez o melhor pedido,

Because it was grassy and wanted wear;
Porque era gramada e queria ser útil;

Though as for that the passing there
Apesar de que em relação a isso os passos

Had worn them really about the same,
As tinham desgastado praticamente o mesmo tanto,

And both that morning equally lay

E as duas se ofereciam igualmente naquela manhã

In leaves no step had trodden black.
Em folhas que nenhum passo tinha tingido de preto

Oh, I kept the first for another day!
Oh, eu guardei o primeiro para outro dia!

Yet knowing how way leads on to way,
Mesmo sabendo que caminhos levam a caminhos,

I doubted if I should ever come back.
Duvidava se deveria algum dia voltar.

I shall be telling this with a sigh
Eu devo contar isto com um suspiro

Somewhere ages and ages hence:
Em algum lugar, tempos e tempos mais tarde:

Two roads diverged in a wood, and I—
Duas estradas se bifurcavam próximo a um bosque, e eu -

I took the one less traveled by,
Eu escolhi aquela menos viajada

And that has made all the difference.
E isto tem feito toda a diferença.


Robert Frost
*1874 +1963
poeta norte americano. literatura século XX. alguns conhecidos: erza pound, william butler yeats. coleção: prêmios Pulitzer.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Flores nunca saem de moda




Recebi esta flor outro dia. Tudo bem que foi por meio digital, mas a sensação de recebê-la foi tão boa quanto aquela, à moda antiga. O remetente, que parecia pedir desculpas por algo que não fez, mandou um mensageiro sisudo entregar-me a flor cor-de-rosa. Agora a flor estará sempre guardada, não perderá o viço nem o cheiro. E o que o olhar daquele mensageiro me dizia também não esquecerei.

Errante

Com o tempo a gente acostuma, não se preocupe. Mas fica eternamente assim, arrancada da terra. Lugar vazio para sempre. Vazio que faz bem.


"A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo."
Fernando Pessoa

"As vezes ouço passar o vento; e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido."
Fernando Pessoa

"Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida."
Fernando Pessoa

"Viver não é necessário. Necessário é criar."
Fernando Pessoa

Dolores

- Oh Dolores, cadê ocê?
- Eu tô sempre aqui...
- Uai, pensei que tinha ido já, tá tão indolor!
- Aproveita entao! Tô aqui só pra te lembrar que não vale a pena voltar atrás!

segunda-feira, 2 de março de 2009

Lógica no amor

"se a natureza humana preparou o ser humano para a realização plena do amor, não pode ser considerado nomal, válido, um tipo de amor que exclui as atividades inerentes ao ato de amar".

C.D.Andrade

Gramática da vida

-Aaaaah!
,,,,,
!!???!?!!???!!!
... ... ...
I I I
o que aconteceu não está acontecendo
nem acontecerá mais.
Como consequência,
porém, entretanto,
felizmente, arduamente,
o ali e o aqui mudam
agora, sempre, nunca.
Talvez, se
a rúbrica fosse legível
não se saberia a diferença entre
o vivido e o apreendido.
.

Sugestão de interpretação:
Travessão para o grito de um rebento. As vírgulas demonstram que o começo é pausado. Aí vem as exclamações, perguntas, reticências. Alguns pingos esquecidos nos is mostram que o pretérito não se conjuga no presente nem no futuro. Mas ele de alguma forma existirá. Conjunções adversativas para crescer, advérbios de modo para sentir e os de lugar abrem as portas do mundo. Os advérbios de tempo indicam que o relógio bate diferente para cada um. O sucesso pode vir com os advérbios de possibilidade. A caligrafia vai se deformando com o tempo e às vezes só quem escreveu consegue ler. O léxico se torna vasto o bastante. É hora do ponto final.

Estréia!

Há um tempo a caneta é minha companheira. Algumas vezes ela era quase uma extensão dos meus dedos, desejosos de imprimir sentimentos e pensamentos que não cabiam mais em mim. Mas foi uma outra que me fez estrear neste mundo de leitores invisíveis. Gostei da idéia e agora seleciono o que o papel e a tinta sempre aceitaram.

Geralmente gosto de mensagens curtas, que foram relidas/reescritas diversas vezes. Gosto das metáforas, da metalinguagem, hipertextos, silogismos, neologismos, intertextualidade, intermídas. Acredito que soluçõe são óbvias e simples; adoro quando a ficha cai e consigo compreendê-las. Procuro aprender com todas as coisas e pessoas do meu cotidiano. Aprendo pela persistência, pela curiosidade, pela tentativa.

Sejamos, então, bem-vindos!